segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Cidadania de Picos: desafio, esperança e amizade

Discurso proferido pelo Desembargador Arnaldo Boson Paes em 25 de agosto de 2011, na Câmara Municipal de Picos, por ocasião da entrega do Título de Cidadão Picoense.


Senhoras e Senhores,

A cidadania é, antes de tudo, um compromisso. Um compromisso com a Nação, o Estado, o Município.

A cidadania é um compromisso que, historicamente, varia de conteúdo, em função do tempo, das circunstâncias e do lugar.

Não é a mesma a cidadania na antiguidade e nos tempos modernos. Uma é a cidadania nas grandes metrópoles do País, e outra é a cidadania nos sertões brasileiros.

A cidadania sertaneja é uma missão desafiadora. Mas é também o sonho e a esperança de dias melhores. E é por isso que está tão arraigada no espírito dos que vivem nos sertões.

Não é preciso dizer que Picos é, tipicamente, uma cidade sertaneja. Esta é uma verdade que entra pelos olhos e penetra a alma e o coração daqueles que podem conhecê-la e vivê-la.

É com esta consciência que recebo, com entusiasmo, o título de cidadão de Picos, flor do sertão do Brasil.

As cidades são invenções das correntes d’água. No mundo, e também aqui. As do Piauí são filhas das águas e também do criatório de gado.

Picos é uma cidade que começou a nascer junto com o Piauí por volta do ano de 1700 às margens do Ria Guaribas para sitiar grandes fazendas de gado.

Em sua origem uma Cruz foi fincada e em torno dela edificou-se a capela São José. Ao seu redor, foram se agrupando casas que deram origem ao povoado, vila e, mais tarde, cidade de Picos.

Aqui é um dos caminhos mais antigos do sertão do Piauí a integrar seus vales: caminho de gado e caminho de gente. Caminho de homens e mulheres de todas as origens e marcados pelo espírito comum de empreender e desenvolver.

Localizada estrategicamente na região centro-sul do Piauí, entre picos montanhosos e em grande entroncamento rodoviário, é hoje um dos principais pontos de integração nacional.

Por Picos passam os caminhos do progresso. As rodovias que lhe cortam estão sendo percorridas por gente que passa para o sul e para o norte. E por gente que fica. E nesse intenso movimento a antiga fazenda de gado transformou-se na “Cidade Modelo”.

Além de conhecida como cidade do alho, da cebola e pela grande produção de mel e comercialização da castanha, ultimamente assume novos desafios em função de seu intenso e contínuo desenvolvimento econômico.

Três séculos de vida e história produziram uma cidade pujante, dinâmica, próspera e referência no sertão brasileiro.

Sua história é marcada pela presença de notáveis personalidades de ontem, de hoje e de sempre que fizeram de suas vidas exemplos para todas as gerações.

Sobressaem as figuras do renomado escritor regionalista Fontes Ibiapina, do jurista Coelho Rodrigues, do líder político Justino Luz, do combativo deputado Severo Eulálio, do governador e senador Helvídio Nunes de Barros, do bispo Dom Augusto Rocha e do professor e conselheiro Antonio de Barros Araújo.

Com a atuação destas e de outras personalidades e principalmente com o labor diuturno de tantas figuras humildes e anônimas, Picos progressivamente transformou-se em centro geopolítico do sertão central do Brasil, em torno do qual se organizam municípios e populações de diversos estados nordestinos.

Picos é uma cidade de tardes quentes e manhãs ensolaradas, com seu calor aliviado pela brisa refrescante das águas do Rio Guaribas.

A riqueza histórica, urbanística e arquitetônica é integrada por um complexo de atrações turísticas de inestimável valor cultural.

Destacam-se o belo estilo gótico da Catedral de Nossa Senhora dos Remédios, a deslumbrante vista panorâmica da cidade a partir do Morro da Mariana, a arquitetura singular da “Igrejinha” dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, a diversidade de produtos da Feira-Livre, o rico acervo do Museu Ozildo Albano e o famoso SEP, tetracampeão piauiense.

De algum modo contribuí para a formação da paisagem urbanística da cidade. Presidindo o Tribunal do Trabalho, tive a felicidade de construir o primeiro Fórum Trabalhista de Picos, onde se concilia o trabalho e o capital e se faz justiça social.

Agora Picos mostra um perfil de cidade de negócios, serviços, agroindústria e referência universitária.

A cidade tem duas grandes vocações. 

Uma é superar as adversidades e, através da natureza, garantir mais do que trabalho e renda. As produções de caju e mel são destaque nacional e por meio delas Picos empurra o Piauí pra frente.

A outra é o cooperativismo, que confere ao picoense uma espécie de trincheira contra o descaso do poder público. Unidos os apicultores tornam-se grandes e exportam para o mundo. Os produtores de caju são um símbolo de resistência e trabalho que deu certo.

Depois da capital, é a primeira cidade em arrecadação de ICMS e detém o terceiro maior PIB do Estado.

Picos possui cerca de um veículo para cada dois habitantes. É a cidade com o maior números de motos per capita do Brasil, destas 99% são Honda e compradas na New Motos do empresário Araujim.

É o mais movimentado entreposto comercial do Piauí e exerce influência política, econômica, social e cultural sobre mais de 50 municípios do Nordeste.

Possui seis instituições de ensino superior e tornou-se a maior cidade judiciária do interior do Piauí, abrigando importantes órgãos, como as Justiças do Estado, do Trabalho, Eleitoral e Federal.

A culinária tem no carneiro assado seu prato mais típico, encontrado em todos os restaurantes, inclusive na famosa pizza de carneiro. Às vezes o bode passa por carneiro, mas ainda assim é uma delícia e deve ser degustado.

Aqui, também, tenho importantes referências e construí intensos laços de amizade. Além de tantos outros, registro as figuras do notável magistrado Edvaldo Moura, do brilhante conselheiro Kennedy Barros, do jovem deputado Tadeuzinho, do honrado deputado Kleber Eulálio e do arrojado empresário Araujim.

Assim, não sou um estranho no ninho em Picos. Aliás, aqui, como em Teresina, não há estrangeiros, sendo acolhidos todos os que aqui chegam com cálida hospitalidade.

Isso faz de Picos uma cidade cosmopolita, formada por habitantes de diversas origens e recebendo deles forte influência, daí a diversidade e a riqueza cultural de uma cidade singular.

Agora, com a cidadania honorária, que me é conferida pela Augusta Câmara Municipal, torno-me filho de Picos.

Trata-se, na verdade, de uma honraria sem igual, na medida em que a cidadania, seja ela natural ou honorária, é um troféu que carregamos, orgulhosamente, em nossas vidas.

E como toda cidadania é compromisso com a terra que nos confere o título cidadão, só me resta, mais do que antes, empenhar-me na defesa das legítimas aspirações do povo desta cidade, ao lado de todos os picoenses, de berço ou não.

Agradeço aos vereadores de Picos, em especial ao vereador Filomeno Portela, o título de cidadania, que hoje recebo, e que, para mim, é motivo de alegria e de justificado orgulho.

Agradeço igualmente aos amigos e familiares que nos honram com suas ilustres presenças.

E para agradecer aos amigos que vieram me prestigiar e aos muitos outros que aqui não estão, mas que conquistei e cultivo ao longo da vida, gostaria de encerrar fazendo uma celebração à amizade.

Carlos Drummond de Andrade ao escrever o poema “Canção Amiga” disse do seu desejo de preparar uma canção em que todas as mães se reconhecessem e que ela falasse como dois olhos. Quero então neste momento lançar algumas palavras nas quais os meus amigos se reconheçam, todos os amigos se reconheçam e falem fundo no coração. 

E para isto, cito o poeta americano Emerson, que disse certa feita  que “a única maneira de ter um amigo é sendo um.” Há também duas frases  que, atribuídas a autores desconhecidos, dizem que “para cada virtude, basta um homem; para a amizade, são precisos dois, pelo menos.” “Celebrar a vida é somar amigos, experiências e conquistas, dando-lhes sempre algum significado.” 

Com a vida, aprendi que a amizade não se constrói do dia para a noite, mas com vários dias e várias noites é possível criar laços fortes e indestrutíveis. A confiança, a esperança e o companheirismo são os meios e os fins das pessoas que querem mais pessoas ao seu lado.

Então é isso. A amizade é uma construção coletiva. E esse é o grande significado dessa assembleia aqui reunida. É isso que quero celebrar neste momento tão especial. A amizade dos amigos. 

Alguns estarão se perguntando: o que é o amigo? A estes respondo que “o amigo - e essas palavras não são minhas, mas de Vinícius de Moraes, - é um ser que a vida não explica. Que só se vai ao ver outro nascer. E o espelho de minha alma multiplica...”

Muito obrigado!

2 comentários:

  1. "Celebrar a vida é somar amigos, experiências e conquistas, dando-lhes sempre algum significado".
    Concordo plenamente.Belíssimo texto.

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