domingo, 17 de abril de 2011

O SONHO EUROPEU

Arnaldo Boson Paes

Com esse título, o pensador Jeremy Rifkin apresenta consistente investigação em que demonstra como a visão européia do futuro vem eclipsando o Sonho Americano. Na sua análise, “O Sonho Europeu é um farol de luz num mundo conturbado. Ele nos conduz a uma nova era de inclusividade, diversidade, qualidade de vida, descontração, sustentabilidade, direitos humanos universais, direitos da natureza e paz na Terra. Nós, americanos, costumamos dizer que vale a pena morrer pelo Sonho Americano. E vale a pena viver pelo novo Sonho Europeu.”

A propósito, em 25 de março de 1957 foi firmado o Tratado de Roma, resultando hoje na União Européia, uma instituição de governo pós-moderna com 25 países, formada por quase meio bilhão de pessoas, moeda única, passaporte comum, com uma comissão que exerce o poder executivo, com parlamento que elabora leis que prevalecem sobre as leis de cada país e um tribunal de justiça cujas decisões se impõem aos países membros e a seus cidadãos. Sua semente germinou sobre os escombros da II Guerra e sua instituição não objetivava formar uma coalizão entre Estados, mas sim uma união entre os povos. Hoje, passados 50 anos e após sucessivos tratados internacionais, a humanidade pode encher-se de esperanças com a possibilidade de universalização do Sonho Europeu.

Historicamente o território europeu foi palco de freqüentes e sangrentos conflitos. E da II Guerra resultou uma Europa devastada e dividida em dois blocos antagônicos. Entre angústias e medos, vingou a idéia de que as nações européias poderiam encerrar séculos de guerras entre si adotando políticas estratégicas comuns.  Postulou-se a criação de uma instituição dotada de uma perspectiva universal, de cunho visionário, pugnando por uma ética global. Para sua edificação, os Estados foram abrindo mão de uma parcela cada vez maior da soberania nacional em favor da União. O projeto de União Européia não é uma obra concluída, mas sim algo que vai se metamorfoseando, ajustando-se a novas e dinâmicas realidades.

Entre nós, por influência do pensamento americano hegemônico, há uma formação orientada à busca do sucesso individual, do progresso material, do crescimento econômico, da riqueza pessoal e da satisfação do interesse próprio. Essa concepção parece estar sendo superada ante as profundas mudanças na organização social, havendo sinais de envolvimento da humanidade com uma nova consciência global, comprometida com uma sociedade cada vez mais integrada e globalizada. E parece que à União Européia se reserva a missão de liderar a humanidade rumo a uma nova era, capaz de representar as melhores aspirações para um amanhã melhor.

Embora com algumas dificuldades políticas de implementação, está em desenvolvimento um projeto de Constituição Européia, algo novíssimo na história da humanidade, que objetiva materializar em um documento essas novas esperanças. Na União Européia há uma consciência de que os sonhos refletem esperanças, e não realizações; e as idéias que motivaram o Sonho Europeu há 50 anos representam um futuro a ser realizado.

O Sonho Europeu de que fala Jeremy Rifkin não indica o que os europeus são. Aponta a direção que desejam seguir. Alguns dirão que o Sonho Europeu é uma utopia. A resposta parece estar em Eduardo Galeano: "A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte afasta-se dez passos. Por muito que caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? Para isto: serve para caminhar".

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