quarta-feira, 20 de abril de 2011

COMO LER UM TEXTO COMPLEXO

Arnaldo Boson Paes

Identificar com clareza o tipo de texto que está lendo, resumir sua unidade numa única frase ou no máximo num parágrafo curto, identificar suas partes principais, demonstrando como estão organizadas para formar um conjunto, descobrir as intenções do autor e encontrar as palavras-chave. Estas regras constam da obra “How to read a book”, de Mortiner J. Adler, que sistematiza métodos que potencializam a eficiência da leitura.

Embora simples, são regras úteis para os iniciantes no conhecimento científico-jurídico. Os estudantes de Direito, acostumados ao processo de aprendizagem do ensino médio, orientado para apreensão de um conjunto amplo de informações, assim que começam suas atividades acadêmicas, enfrentam sérias dificuldades para a compreensão da linguagem jurídica e para a leitura de textos conceitualmente mais complexos.

Deve ser considerado que, diante  mesmo texto, uma pessoa pode ler melhor do que outra. Essa diferença é determinada pelo grau mais ou menos ativo de leitura e pela maior ou menor habilidade do leitor no domínio de técnicas para uma boa leitura. Sendo assim, este texto é uma síntese do estudo sobre métodos de leitura. O objetivo é apresentar um conjunto de regras e orientar o desenvolvimento de habilidades de leitura e análise para que o estudante de Direito possa compreender adequadamente um texto jurídico que lhe parece complexo e inacessível.

Conforme Mortiner J. Adler, existem quatro níveis de leitura: a) elementar (básica, que envolve o reconhecimento das palavras e compreensão do que elas significam); b) inspecional (o leitor extrai o máximo do texto, em tempo limitado, através de um folheio sistemático) ; c) analítica (mais completa, com tempo ilimitado, exigindo que o leitor “mastigue” e “digira” o texto); e d) sintópica (própria do pesquisador, envolve a leitura ao mesmo tempo de vários textos, sobre o mesmo assunto, comparando-os). Esses níveis são cumulativos, de modo que os mais altos compreendem os mais baixos.

O objetivo aqui não é dissecar cada um desses níveis. O fim que move este texto é apenas o de transmitir algumas técnicas que possam proporcionar aos alunos da graduação em Direito o máximo de eficiência nas leituras. O texto constitui tão-somente uma síntese das técnicas de leitura formuladas por Mortiner J. Adler em sua obra “How to read a book” e desenvolvidas pelo professor Ronaldo Porto Macedo Júnior (FGV e FADUSP) em seu artigo "O Método de Leitura Estrutural", publicado nos “Cadernos Direito GV”.

Com estes esclarecimentos, merece ser assinalado que não há apenas uma forma de leitura. Pode-se fazer uma leitura rápida ou uma leitura demorada. Uma primeira leitura, mais rápida, pode ser muito útil. Através dela se poderá ter uma visão de conjunto do texto, para posteriormente realizar uma leitura demorada, de modo que, a partir da visão do todo, possa-se chegar às partes e aos detalhes do texto. A leitura rápida serve de preparação para uma leitura mais aprofundada e analítica. Terá também a utilidade para avaliar se o texto realmente merece ser lido, se há necessidade de uma leitura integral ou apenas parcial.

Convém consultar o sumário do texto, ainda que não se pretenda ler todo o seu conteúdo. Essa leitura tem a vantagem de permitir uma visão do conjunto da obra. Uma boa dica é ler com atenção, de maneira pausada e cuidadosa, o início dos textos, especialmente os primeiros parágrafos, pois geralmente é aí que o autor apresenta seus objetivos e o projeto das idéias que desenvolverá. É útil também a leitura dos parágrafos finais do texto ou de seus subitens, haja vista que nestes tópicos geralmente são resumidos os argumentos principais e podem servir de orientação para a compreensão da estrutura do texto.

Conforme adverte o professor Ronaldo Porto Macedo Júnior,  não se pode deixar de ler os prefácios e as introduções. Aí freqüentemente estão pontos fundamentais para melhor e mais facilmente compreender os objetivos do autor e a estrutura do texto. Recomenda-se buscar palavras-chave que possam conduzir aos temas centrais desenvolvidos pelo autor. Muito útil também é o recurso ao marcador de texto ou lápis para destacar as idéias centrais de cada passagem. Não deve haver preocupação exagerada com as passagens do texto que na primeira aproximação pareceram incompreensíveis. O importante é o leitor concentrar-se naquilo que é capaz de compreender, deixando para uma leitura mais demorada os pontos que se mostraram obscuros.

O texto deve ler lido programando-se sua releitura. Não deve o leitor se preocupar em entender tudo na primeira leitura. Numa leitura seguinte será possível retomar com muito mais facilidade os pontos não compreendidos. Ler e reler é muitas vezes mais econômico e eficiente do que tentar entender tudo na primeira leitura. Além disso, na segunda leitura, após a leitura de todo o texto, será possível uma visão da floresta, antes de procurar decifrar cada uma de suas árvores.

Segue então a leitura mais aprofundada. Diante de textos complexos, não há como realizá-la sem disciplina, esforço e perseverança. O primeiro passo é começar a leitura com antecedência. Deve o leitor procurar identificar em quantas partes o texto está dividido, identificando e numerando os argumentos e subargumentoso. Assim será possível visualizar a estrutura do texto e identificar rapidamente quais e quantos são os argumentos centrais, bem como os seus subargumentos.

Ainda segundo o professor Ronaldo Porto Macedo Júnior, o leitor deve definir com clareza numa só afirmação qual é o argumento desenvolvido em cada parte do texto. Devem ser lidos com atenção especial os capítulos que parecem conter as idéias centrais e estruturantes do argumento principal defendido pelo autor. O texto deve ser lido de acordo com os objetivos de leitura. Poderá ser um desperdício ler de maneira muito minuciosa e lenta um texto que não é merecedor de tamanha atenção. Por outro lado, outros textos praticamente não admitirão uma leitura que não seja minimamente rigorosa, sob pena de tornar-se a leitura um esforço inútil.

Por fim, a eficiência das técnicas dependerá da prática, na medida em que somente se aprende a ler e compreender um texto através do exercício da leitura. E nesse ponto parece oportuna a reflexão de Mortiner J. Adler sobre a importância da leitura para a evolução da mente: “Ler bem, ou seja, ler ativamente, portanto, não é apenas uma ventura em si mesma, nem apenas um meio de progredir num trabalho ou numa carreira. Serve também para manter nossa mente viva e em crescimento.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário