sábado, 30 de abril de 2011

CIDADÃO TERESINENSE: UMA BREVE HISTÓRIA

Arnaldo Boson Paes

Discurso proferido no dia 11 de abril de 2007, no Fórum Trabalhista de Teresina, por ocasião do recebimento do título de cidadão teresinense.

A cidadania não é dessas coisas que nos são concedidas pelo nascimento, como o nosso corpo e as aptidões naturais de nossa inteligência.

A cidadania não se trata de algo dado pela natureza, mas construído culturalmente pelo homem.

Assim, a cidadania nasceu, como um dos primeiros gestos da solidariedade humana, quando os romanos, por acordos particulares e, mais tarde, por decretos reais, concedia aos homens das cidades estrangeiras o cobiçado título de cidadão romano, com o que passavam a gozar, no direito da cidade, do benefício das leis romanas.

Talvez em razão dessas raízes históricas, HANNAH ARENDT pode definir cidadania, nos dias de hoje, com palavras simples: - “cidadania é o direito de ter direitos”.

O honroso título de cidadão teresinense, que recebo da valorosa Câmara Municipal de Teresina, confere-me, por decreto legislativo, o direito de ser teresinense, tratando-me igual com aqueles que são teresinenses por naturalidade.

A cidadania é um título popular, que nos faz sentir igual com o povo da cidade em que nascemos ou adotamos como berço, ou que se escolheu como abençoado espaço onde vivemos.

De mim, posso dizer que, se a cidade é a casa do homem, fiz de Teresina a minha casa, ainda nos albores de minha juventude, a ela me ligo pelo coração, e nela me sinto à vontade, como todo homem em sua morada, na intimidade da família e na companhia dos amigos.

Antes de ser teresinense, por decreto legislativo, eu já o era pelo coração – permitam-me a inconfidência que não desmerece a homenagem! – porque esta é a cidade que aprendi a amar, desde muito cedo, em minha vida.

E somente assim é que se pode compreender A. TITO FILHO ao escrever que “aqui não há estrangeiros. Há teresinenses”. É que o amor não nos torna estranhos nas relações sociais, mas iguais uns aos outros na hospitalidade de Teresina, onde “há o diálogo humano de todos”, como posso proclamar publicamente, com as palavras ainda atuais de A . TITO FILHO:

“Aqui (...) há o diálogo humano de todos. O operário na realização de seu valor social, o jornalista na sua tenda, o líder na sua pregação, o político no seu mundo, - e todos se compreendem, se estimam, se falam (...). Ainda se comenta a vida alheia e se põe rabo-de-palha em quem não tem (...)”.

Sou baiano, de Campo Alegre de Lourdes, cidade do Norte da Bahia, encravada entre Caracol e São Raimundo Nonato. E a presença de baianos em Teresina não é absolutamente extraordinária, porquanto o fundador da cidade, no longínquo 16 de agosto de 1852, era baiano!

Concluído o curso ginasial, era previsível que me dirigisse a Salvador para dar continuidade aos meus estudos. Mas a mão invisível do destino mudou o roteiro natural de minha vida juvenil. A convite de ADELINO DIAS PINHEIRO e EROTIDES DIAS PINHEIRO, primos de meu pai AGNELO PAES LANDIM, mudei-me para Teresina, juntamente com meus irmãos, para cursar o científico.

Cheguei em Teresina, em dias de março de 1980, com apenas 14 anos de idade! Por aqui já havia passado MONSENHOR BOSON, meu tio-avô, que foi, durante muitos anos, Diretor do Colégio Diocesano, deixando atrás de si, como verdadeiro apelo aos vivos, um eloqüente exemplo de estudo, trabalho e devotamento.

Com espírito estudantil, comecei a viver Teresina. Por esse tempo, só podia vê-la com o encanto juvenil com que via a própria vida – pleno de esperanças no presente e cheio de sonhos no futuro!

Coração de estudante, Teresina era o que eu sentia e sonhava. A missa, aos domingos, na Igreja do Amparo, para a juventude da época, com moças e rapazes, antes, durante e depois da celebração, caminhando, lentamente, em sentidos contrários, em torno da Igreja.

Coração de estudante, Teresina era os filmes no Cine Rex e no Cine Royal. Era, a pretexto disso, a mobilização estudantil pela meia-entrada nos cinemas locais. Era o povo mobilizado nas ruas, clamando por anistia ampla, trabalhadores em greves, movimentos por eleições diretas, tudo isso em protestos tão próprios da vida na cidade e dos quais participei com o entusiasmo juvenil.

Coração de estudante, participei, nas noites de domingo, com a juventude local, da feirinha dos jovens, na Praça Saraiva, e freqüentei as discotecas Moby Dick, Aquarius e Doce Vida, no melhor dos embalos de sábado à noite. Participei discretamente do encanto da vida noturna da cidade e minha referência principal é o bar Nós e Elis, reduto dos intelectuais e um marco na noite boêmia teresinense.

A minha vida estudantil foi intensa, mas, apesar disso, passou rapidamente, pois que seis (6) anos depois de minha chegada a Teresina já estava bacharelado em Direito. Quatro anos depois de formado já estava exercendo o cargo de juiz do trabalho, após ter exercido, por concurso público, cargos no INAMPS e na Justiça Federal.

Com a passagem de minha vida estudantil, perdi também meu coração de estudante e, ficou para trás, nas palavras de A . TITO FILHO, a “Teresina pacata, pacífica, pitoresca, tranquila, saborosa e afetiva.” Mas antes que essa Teresina passe, por completo, como numa imagem computadorizada, que se forma, vagarosamente, por miríades de pequenos pontos, pude acompanhar com interesse os grandes acontecimentos que marcaram a vida da cidade.

O primeiro deles foi a visita do PAPA JOÃO PAULO II ao Piauí, em passagem rápida por Teresina, em julho de 1980, há poucos meses de minha mudança para esta capital.

Confesso que isso foi para mim, como para toda a cidade, um momento ímpar – um jovenzinho de 14 anos, de formação católica, do interior da Bahia, participar, no meio da multidão, de um acontecimento que reuniu mais de cem (100) mil católicos, marcado pelo protesto com a faixa “Santo Padre, o Povo Passa Fome”.

Outro acontecimento marcante na cidade, do qual participei, como estudante universitário, foi a visita do GOVERNADOR TANCREDO NEVES, em 1985. Na ocasião, o país estava mobilizado com a campanha “Diretas Já”, um acontecimento importante na história política teresinense, porque levou milhares de pessoas à avenida Antonino Freire, sacudindo a opinião pública, todos a uma só voz clamando pelo retorno da Democracia.

As visitas do PAPA JOÃO PAULO II e do GOVERNADOR TANCREDO NEVES mostraram essa Teresina apoteótica, ou, nos versos do POETA CINÉAS SANTOS, a Teresina “altiva, como um grito de vitória”.

Vivi também a Teresina triste, comovida com morte inesperada do Prefeito WALL FERRAZ, uma estrela cadente no firmamento político da cidade, deixando para trás de si um rastro de luz que o tornou enorme no coração dos teresinenses.

Na natureza, conheci a preocupante apoteose das águas, em 1985 e agora em 2008, com a grande enchente que fez transbordar os dois rios que cortam a cidade. E, desde sempre, a apoteose do sol, que brilha, permanentemente, ano após ano, do amanhecer ao entardecer, constituindo e reconstituindo a vida, com generosidade, amor e sabedoria. Mas há, também, entre estas duas apoteoses da natureza, a morte dos rios Parnaíba e Poty, num espetáculo que nos entristece, como se a cidade estivesse destruindo o próprio berço em que nasceu.

Vivi a Teresina das grandes avenidas, que, num grande abraço, vão margeando a cidade, e ao lado delas, os parques que ora desaparecem ou permanecem, como locais de lazer e cultura – o Parque da Cidade, o Parque Encontro dos Rios e o Parque Potycabana.

Ao lado dessas avenidas, construíram-se os grandes shoppings e grandes espigões residenciais que contrastam com a arquitetura modesta de nossos bairros, vilas e habitacionais.

Na paisagem social e urbanística de nosso tempo, a nossa querida Teresina, hoje, são várias Teresinas, que convivem num mesmo espaço geográfico.

A Teresina dos espigões e das casas populares. A Teresina rica e a dos bolsões de miséria. A Teresina pacífica e a manchada pela violência. A Teresina das oportunidades, com quase trinta (30) instituições de ensino superior, e a Teresina que busca um lugar ao sol no mercado de trabalho. A Teresina moderna e a Teresina antiga.

A qual dessas Teresinas pertencemos? De qual dessas Teresinas somos cidadãos? Somos todos teresinenses. Pertencemos a todas essas Teresinas. Somos cidadãos de todas elas. Por todas elas temos grandes responsabilidades sociais, políticas e culturais.

Na sucessão dos fatos, vi nascer o TRT do Piauí, com sede em Teresina, que presido, atualmente, com muita honra para mim. Nele, luto cotidianamente, ao lado de meus colegas magistrados, pela Teresina de todos, isto é, menos desigual, mais humana, mais justa nas relações de trabalho.

A Justiça do Trabalho, que é conciliatória por excelência, bem combina com o espírito conciliador da cidade, que no seu mosaico social mistura realidades tão díspares. A riqueza e a pobreza, o esplendor do sol e a morte dos rios, a arquitetura modesta das vilas e bairros e a arquitetura arrojada dos edifícios residenciais e comerciais, a cidade com seus espaços horizontais vazios e os grandes espigões que se erguem verticalmente em busca de espaço.

Esse espírito conciliador da cidade é “um dos traços mais impressionantes de Teresina”, que sabe abraçar, de modo eloqüente, o próximo, independentemente de sua condição social ou de sua cor política, como assinala inspiradamente A. TITO FILHO:

“Acima de tudo, um dos traços mais impressionantes de Teresina, está na eloqüência com que sabe abraçar o próximo, dar ao próximo o seu amor e o seu afeto – realizando o melhor processo educacional – o do afeto e o do amor”.

O que sacode o espírito conciliador da cidade são ainda hoje as divergências políticas. É que “a paixão política é poderosíssima... Apenas perde para a paixão de amor entre os mancebos e donzelas de antigamente”, como diz A. TITO FILHO, ao descrever a Teresina afetiva, tranqüila e pitoresca do passado.

Devo dizer que como magistrado do trabalho me identifico profundamente com o espírito conciliador que domina a cidade. Defendo uma justiça em que não haja vencedor nem vencido; que não haja decisões impostas pela vontade solitária de um homem. Prego e pratico soluções conciliadas, nas quais se humaniza o processo, reaproximam-se as partes, restabelece-se o diálogo, com resultados satisfatórios para todos, aprimorando-se a convivência social no espaço da cidade.

Posso dizer que Teresina, desde os meus primeiros dias na cidade, conspira a meu favor, beneficiando-me com os acontecimentos ímpares de ter me formado aqui, de aqui exercer a minha profissão, quer na magistratura, quer no magistério universitário, e aqui ter constituído, ao lado de minha querida Fátima, uma família que tem sido o meu porto, o meu aconchego e o meu sonho – Arnaldo Júnior e Taís!

Por estas e outras razões não menos legítimas recebo o título de cidadão teresinense como recompensa pelo amor que tenho a esta cidade; como coroamento pela devoção que lhe dedico; como estímulo para continuar trabalhando no meu mister de magistrado do trabalho e como honroso reconhecimento pela minha identificação com a cidade e as suas aspirações.

Ao me ser concedido o honroso título de cidadão teresinense, pela Augusta Câmara Municipal, sei que Teresina está conspirando a meu favor, mais uma vez, pelo que devo expressar a minha gratidão à terra e à gente teresinense na pessoa do vereador FERNANDO SAID, por todos os seus ilustres pares.

Não sabia eu, vereador FERNANDO SAID, que tanto me alegrei, nos meus primeiros tempos de Teresina, com os comentários vibrantes de CARLOS SAID, o Magro de Aço, que iria receber das mãos de seu filho o título de cidadania que tanto me engrandece.

Agradeço aos ilustres convidados que me honram com a sua presença fraterna.

Agradeço aos meus familiares - pais, irmãos, mulher, filhos e a todos estendo a homenagem que recebo da Câmara Municipal de Teresina, na certeza de que eles também se sentem homenageados comigo.

De tudo, sei que a cidade tem uma alma. É a alma do seu povo. E a alma de Teresina é alegre, sorridente, acolhedora e solidária como a alma dos teresinenses.

Por isso, concluo as minhas palavras, declarando, em alto e bom som, com A .TITO FILHO:

“Teresina, meu amor!”

Muito obrigado.

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